Havana

A história e o Museu da Revolução em Havana, Cuba

A história e o Museu da Revolução em Havana, Cuba
10 jun 2015
Atualizado em: 25/08/2017

Cheguei ao Museu da Revolução , em Havana, depois de já ter conhecido boa parte da cidade e de outras regiões da ilha. Queria entender primeiro a Cuba de hoje, ver no que deu a história daqueles barbudos que criaram o primeiro e único país socialista da América Latina.

Contei sobre o que vi aqui:

Cuba: O que já mudou na ilha

Pois deveria ter vindo antes. Entre tantos museus, se precisar escolher o que ver em Havana, não tenha dúvidas. A visita ao Museu da Revolução é quase obrigatória. Para fazer com calma e tentar entender porque, aos trancos e barrancos, sob escombros, ameaças, bloqueios, pobreza e dificuldades diárias, o socialismo em Cuba chegou até aqui.

Cuba

Nesta viagem, a gente esbarra na história de Cuba o tempo todo. As pessoas sabem de cor e salteado cada passo de Fidel, Che e outros comandantes da Revolução. Velhos painéis espalhados pelo país lembram suas ideias e palavras mais inspiradas. Embora pareçam, eles mesmos, peças de museu.

Che Guevara em batalha e nos postais de Havana.

Che Guevara em batalha e nos postais de Havana.

 

O personagem principal, lógico, é Che Guevara, que morreu cedo e manteve pra sempre o charme de herói idealista embora fosse também um grande comandante militar. Mas Raul e Fidel também não envelhecem nos antigos cartazes, aparecem sempre como nas fotografias expostas no Museu da Revolução.

O começo da história

Se Cuba não fosse Cuba, a história seria um daqueles épicos que viram filme em Hollywood.

 

Salón de los Espejos

Salón de los Espejos

Dois anos de guerrilha não combinam muito com o palácio suntuoso, as escadarias de mármore, a cúpula colorida do prédio que abriga hoje o museu. O imponente e luxuoso Salón de los Espejos lembra a época em que ele serviu de casa, escritório de salão de festas dos presidentes de Cuba entre 1924 e 1964.

Quando Fidel chegou, encontrou o espaço livre. A vitória foi comemorada primeiro no outro extremo a ilha, em Santiago de Cuba, perto das montanhas de Sierra Maestra.

As imagens expostos no terceiro andar mostram o que ele e seu grupo aprontavam país afora desde a invasão frustrada ao quartel de Moncada, em julho de 1953.

 

Fotos expostas no Museu da Revolução.

Fotos expostas no Museu da Revolução.

 

Depois do ataque, Fidel e outros sobreviventes foram presos na Isla de la Juventud. O advogado de 27 anos perdeu, mas ganhou. Conseguiu sua primeira tribuna, defendeu a si mesmo e aproveitou o julgamento para expor suas ideias ao pais.

O sargento Fulgêncio Batista havia chegado ao poder um ano antes, depois de um golpe de estado pouco antes da eleição. Cuba tinha tudo para seguir no trilho das longas ditaduras militares, algo que brasileiros, argentinos e chilenos conhecemos muito bem.

Mas a ilha mudou o script. Anistiado dois anos depois, Fidel exilou-se no México, onde conheceu o médico argentino Che Guevara e planejou um retorno simbólico. A ideia era desembarcar no mesmo dia do ataque a Moncada.

Não deu muito certo. O iate Granma, exposto no memorial anexo ao museu, chegou dois dias atrasado. Trouxe 82 homens no espaço de 10. Dos 82, apenas 12 conseguiram sobreviver aos ataques de Batista e à fome nas encostas de Sierra Maestra.

Entre eles estavam Fidel, Che, Raul e Camilo Cienfuegos, o comandante menos conhecido fora de Cuba.

Fidel e o New York Times

Enquanto o grupo subia o Pico Turquino, o mais alto do país, com a ajuda de indígenas da região, o governo convencia a opinião pública de que os rebeldes estavam aniquilados.

Como sair da enrascada em que tinham se metido, ilhados no topo de uma montanha cercada pelas tropas do exército? Fidel deu mais um golpe de publicidade: chamou o New York Times. O jornal americano deu o furo, Fidel provou que estava vivo e começou a virar mito.

 

Combatentes - Cuba

Milhares de voluntários começaram a chegar do país todo para se juntar aos barbudos de Sierra Maestra. Vieram agricultores, estudantes, mulheres. Em dois anos, o grupo de 12 homens tornou-se um exército de 30 mil pessoas.

Eles atacavam os comboios do governo, roubavam armas e munição. Cada batalha ganhava o país e o mundo através da Radio Rebelde, montada por Che.

Sierra del Escambray, no centro-sul de Cuba, região em que Che venceu batalhas importantes.

Sierra del Escambray, no centro-sul de Cuba, região em que Che venceu batalhas importantes.

Batista ainda tentou salvar o governo organizando eleições, mas ¾ da população cubana não apareceu pra votar. No final, o grupo de dividiu. Fidel ficou em Santiago, Raul foi para Guantânamo, Che Guevara e Camilo Cienfuegos lideraram duas colunas em direção ao oeste.

Em 31 de dezembro de 1958, os dois comandantes vencem sua maior batalha em Santa Clara, a 270 quilômetros de Havana. Fulgêncio Batista fugiu no dia seguinte para a República Dominicana.

 

Fidel discursa em havana após a fuga de Batista.

Fidel discursa em havana após a fuga de Batista.

 

Ainda demorou para Fidel Castro chegar ao palácio do governo em Havana. Antes, atravessou o pais com mais de mil homens, marchando e discursando.

Depois virou primeiro-ministro. Che dirigiu o Banco Nacional até voltar para a guerrilha e ser morto na Bolívia.

Embora o prédio do Museu da Revolução seja grande e suntuoso, toda essa história é contada de forma simples, em fotos e recortes de jornais da época distribuídos em dois pisos. Um bom ponto de partida para começar a compreender a história e o presente de Cuba.

O guerrilheiro, 5 décadas depois

Fora do museu, conheci por acaso um dos antigos combatentes. O senhor Valentin, o pai do médico que me hospedou em Havana, poderia estar entre os guerrilheiros que aparecem nas fotos em exposição.

Após a vitória da revolução, Valentin passou ainda mais de dois meses combatendo os contrarrevolucionários na Serra de Escambray, perto de Trinidad. Lutou também em Playa Giron , durante a famosa e desastrada invasão da Baía dos Porcos por cubanos treinados pelos Estados Unidos. Isso foi em 61.

História de Cuba IDepois, Valentin frequentou uma das escolas fundadas por Che Guevara durante a campanha pelo fim do analfabetismo. Chegou à faculdade, virou jornalista internacional e se aposentou como diretor da Radio Nacional de Havana.

Guarda até hoje a antiga máquina fotográfica e a foto desbotada em que aparece com o fuzil na mão.

Fotos atuais: Cassiana Pizaia
Fotos antigas: Museu da Revolução

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O que fazer em Havana: Um roteiro pelo centro antigo
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por Cassiana Pizaia
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comentários

  1. Claudia Henriques
    21 out 2015

    Olá! Vou pra Cuba no fim do ano e estou na dúvida como tirar o visto de turista. Como você fez?

    • Cassiana Pizaia
      23 out 2015

      Olá, Claudia. Se você for viajar pela COPA, a própria companhia vende o cartão ( visto) de turista. Eu comprei o meu no balcão da empresa no aeroporto de São Paulo durante o check-in. Mas é sempre bom ligar com antecedência para verificar se eles mantém o procedimento. Se a sua passagem for de outra companhia, a saída é pedir o visto no consulado de Cuba em São Paulo ou Brasília. O pedido pode ser feito pessoalmente ou por correio. Veja os documentos necessários e o formulário de inscrição neste link aqui -> http://www.cubadiplomatica.cu/brasil/ES/ServiciosConsulares.aspx#Tarjeta_de_turista. Espero ter ajudado. Boa viagem!

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